domingo, 29 de março de 2015
domingo, 15 de março de 2015
DEVEMOS MESMO QUEIMAR O RABO DA DILMA?
A
galera tá nas ruas Brasilzão a fora. Idosos, empresários, aquele policial que lhe enquadrou na semana passada, crianças, aleijados, estudantes, vagabundos, o cara que arrancou o seu siso e doeu, alunos de MMA, a(o) ex-amante do seu pai, atendentes de telemarketing, a mina que te deu um pé na bunda (e doeu também), enfim, tem muita gente.
Me
pergunto se todos têm consciência do que ali fazem. Olha, pra começar, já vou
dizendo, não sou petista. Inclusive, nas últimas eleições, no 1º turno, não
votei na Dilma, votei na candidata do PSOL (e daí? Achou ruim? Vem pro pau!).
No 2º, eu votei no PT, por estado de necessidade (não preciso explicar por que
não votei no Aécio, ou preciso?). Segundo noticiado, as manifestações foram
convocadas por três grupos. Um deles quer a volta do governo militar (eles se esqueceram
de perguntar aos militares se eles têm interesse no cargo, mas... deixa pra
lá), outro quer o impeachment da Dilma, e o último quer, tcham-tcham-tcham-tcham,
o fim da corrupção (original, não?).
Não
preciso dizer que faz sentido lutar por um país menos corrupto, mas não será
botando o PSDB na cúpula do poder que conseguiremos. Se você acha que os tucanos
fariam um país menos corrupto, você é realmente digno de pena. O caso é que
toda essa gente bradando por coisas diferentes, a maioria repetindo o que ouvia
sem saber direito o que significa, soou esquizofrênico. Mas isso é coisa de
Brasil e de sua gente muito bem politizada pela nossa mídia bastante
democrática que não é controlada por um seleto grupo de conservadores...
Será
que é tão difícil perceber a manipulação que “tá no ar”? As manifestações em
oposição ao impeachment da Dilma tiveram quase nenhuma cobertura. Cinco
segundos de imagem e uma breve definição, foi o que eu vi no Jornal Nacional (eu
assisti apenas para confirmar o que imaginava que iria acontecer, e que de fato
acabou acontecendo). Por outro lado, para as manifestações de hoje, houve
plantões jornalísticos, mudança do horário do jogo e sempre os repórteres da
globo e da band dizendo: “a manifestação é pacífica”; “são milhares de pessoas”;
“contra a Dilma”. Eles repetiam isso, quase como um mantra. Mais ou menos às 19
horas deste domingo, o Ministro da Justiça convocou a imprensa para falar sobre
as manifestações. Apenas a TV Cultura exibiu o pronunciamento do cara. Por que
a Globo não transmitiu a posição do governo sobre os protestos? O tema não era
tão importante a ponto de terem ficado o dia todo cobrindo?
Também
não foi agradável ter visto aquelas pessoas batendo panela. Eu sei que esse
governo cometeu e comete erros, mas não tem como não reconhecer os méritos dele
no COMBATE À FOME, PORRA!!! Na alta cúpula do poder do país, desde João
Goulart, o governo do PT foi (ainda é, se vocês deixarem, é claro...) o único que
se preocupou com as hordas de esquálidos que se avolumavam pelos rincões do
país e periferias das nossas grandes cidades. A ONU reconheceu que o Brasil
saiu do mapa da fome no mundo, pessoal! E vocês batem panela... Isso é que é
vontade de riscar o teflon!
Alguns
já me disseram que mesmo os pobres que votaram na Dilma, os principais
beneficiários das políticas sociais dos anos de governo petista, já se
convenceram de que o ciclo do PT acabou e querem algo novo. Eu concordo com
vocês. Boa parte dessas pessoas é facilmente influenciável e não prima por uma
boa memória. Talvez alguns de seus filhos que tiveram a oportunidade de fazer
faculdade (os únicos em toda a árvore genealógica dessas famílias), graças justamente
aos “petralhas”, também tenham aderido à onda anti-Dilma. Coitados, querem ser
aceitos e abraçar a moda, mas vão se arrepender quando a meritocracia à moda
Brasileira (diga-se, elitismo) voltar.
Nêgo,
você tome tento e pense por você. Não quero formar a opinião de ninguém com
isso aqui, até porque ninguém vai ler, mas quero lançar a dúvida. Eu mesmo
escrevo pra tentar compreender todo esse caldo fétido. Veja, ou melhor, note, rs,
eu sei que a Dilma tem cara de um molequinho atentado, que ela não é
articulada, simpática e fotogênica. Mas, meu querido, essa mulher dedicou a
vida dela aos outros, e ainda dedica. Você acha que pra ela é fácil ser chamada
de puta, ladra, bandida, corrupta, terrorista, escrota, todos os dias, por pessoas que
sequer se dão ao trabalho de ler mais do que o limite de caracteres do twitter (isso sendo otimista),
e se acham a elite intelectual do Brasil a ponto de querer criticar o Juca
Kfouri e o Leonardo Sakamoto?
Eu
também, assim como você, acho política, pelo menos da forma como aprendemos a
compreendê-la, uma RESSACA (o porre é bom, né?). Mas, não tem jeito, lá vai o politiquês: i) temos
de apoiar a REFORMA POLÍTICA (mudar as regras dos financiamentos de campanha,
da composição das maiorias (pra que ninguém, uma vez no poder, tenha que ser obrigado a fazer coligação com o PMDB - isso sim contribuirá com a diminuição das corrupções - "ah, mas ninguém é obrigado, o PT fez a coligação porque quis", tá bom, boneca, olha só: "se não coliga, não governa", esse é o mantra do nosso presidencialismo, de autoria dos peemedebistas); e ii) tributar mais as GRANDES FORTUNAS E AS GRANDES HERANÇAS
(Dilma, não tribute o consumo e a produção, cacete, tribute os ricos, tá, eu
sei, no Congresso não passa, mas tente, e diga isso em rede nacional, que o
arrocho vai ser em cima dos ricos, se não der, não deu, pelo menos você terá tentado...). Alguns de vocês vão achar que essas minhas sugestões são muito duras, que esse papo de tributar ainda mais os ricos é
conversa de socialista vagabundo, de gente que não quer empreender. Saibam que SEUS
QUERIDOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA JÁ FIZERAM TUDO ISSO HÁ UM TEMPÃO, SABICHOSOS!
Vocês sabem quanto é o percentual que os herdeiros norte-americanos têm de pagar
pro fisco e o quanto os ricaços pagam de impostos por lá...?
Pra
concluir, NÃO TEMOS DE QUEIMAR O RABO DA DILMA, a não ser que vocês queiram a
volta dos anos noventa, o aumento da ainda absurda desigualdade social, a
privatização do que resta das empresas públicas (se é isso que você deseja,
recomendo que leia uns artigos de economistas da CEPAL, se não quiser ler, que
se foda...). O caso é que todo o mundo quer, pede, reclama, brada, mas, se
dedicar a tentar compreender esse país, já é outra jogada (vamo lá, quantos de vocês leram Darcy Ribeiro e Raymundo Faoro?). É mais fácil abrir essas bocarras bem
alimentadas e reclamar. Raulzito já dizia: “O PROBLEMA É TÃO FÁCIL DE PERCEBER,
É QUE GENTE, GENTE NASCEU PRA QUERER...”
sexta-feira, 6 de março de 2015
QUE OUTRA PALAVRA PODERIA RIMAR COM DOENÇA?
Eles forçaram a rima torta com paixão
No instante em que, juntos, estavam selados à vida e à morte
Para até o último dia, ligados às vísceras
O casal soropositivo havia tido uma filha
E, a despeito de, durante toda a gestação, a mãe abusar do
crack
A menina nascia magnânima
A vida se renovava mesmo diante de todas as circunstâncias
em desfavor
As tosses contínuas, as febres, as estranhas e inesperadas
melhoras
Não se poder ter a menor ideia sobre o modo de se estar no
dia seguinte
A dependência cruel, a insistência do Sol em aparecer cada
vez mais quente e brilhante
O olhar de pena combinado com nojo vindo dos outros, de
todos os outros
O único desejo: o de desaparecer, lentamente, no último trago,
fazendo-se virar fumaça
Sem nem saberem como, muito menos o porquê, aquela menina
estava ali,
Fazendo-se acontecer e forçando-os a resistir, nem que fosse
por mais um dia, apenas
Sem desculpas, nem perdões
Apenas a realidade,
Para todo o fim,
Em sua profunda indiferença.
terça-feira, 11 de março de 2014
COMFORTAVELMENTE ENTORPECIDO
A profecia Pink
Floydiana mostrou-se correta
Você está no
Facebook, e eu não posso lhe fazer nada
Você está no
Facebook, e não fará nada por ninguém
Seu sorriso
é, assim como todos os outros, insosso
A sua
expressão é um carimbo batido e rebatido milhões de vezes
E eu não
posso lhe fazer nada!
A profecia Pink
Floydiana mostrou-se correta
E todos
sabemos que a realidade pode acontecer lá fora, além
Mas não
sabemos o porquê de não termos coragem de chegarmos até ela
Algo ou
alguém nos prendeu, e, sinceramente, eu não posso fazer nada
Você está no
Facebook, e não fará nada por ninguém
Eu estou vendo
o futebol, e não farei nada por você!
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
É CRÉDITO OU DÉBITO?
Antônio Carlos acorda enjoado. Uma manhã que mais está para tarde. Bota
os pés no chão umas onze e quarenta e, olhando pela janela, percebe que o Sol
está a pino. Uma tranqüilidade salpicada por melancolia o acomete, o que faz a
sensação de enjôo apertar. É feriado.
Em dias comuns, àquele horário estaria no trabalho, o que possivelmente o
impediria de ter pensamentos confusos ou reatar lembranças perdidas, que
deveriam estar para sempre desaparecidas. Esta seria a razão pela qual a ordem
social pautada pela labuta ainda impera. Foi o que rapidamente pensou. Como
mora só, bebe o café que ele mesmo prepara. O calor o convida para uma ducha.
Sente um bem-estar passageiro. Olha-se no espelho, pensa na fatalidade do
tempo, no quanto ainda se transformará. Lembra-se de que não há nada para comer
no almoço. Terá de sair, mas não está com disposição alguma.
Umas duas da tarde, resolve sair em busca do que comer. A forte luz do
dia lhe inebria. Caminha quase sem olhar a calçada, como se instintivamente, às
cegas. Chega a pensar que se trombar com algo seria até divertido, afinal algo
aconteceria. Sabe que já houve épocas mais felizes. As pessoas lhe cruzam, ele
passa por elas, mas não as olha. Sente que também não olham para ele. A elas
ele está absolutamente indiferente. Isso lhe proporciona um estranho prazer,
que imagina ser apenas seu, e talvez o seja.
No supermercado, a luz artificial e a necessidade de encontrar aquilo de
que precisa, o fazem abrir completamente os olhos. Por conta disso, é obrigado
a perceber as cores das pessoas, suas formas, cabelos. Os rótulos insanos de
produtos absolutamente desnecessários. O sorriso doentio dos empregados, derivados
de uma esperança infundada e desesperada de que dias melhores virão. O estabelecimento
faz Antônio Carlos se saber só, se perceber muito diferente do resto de
todo-o-mundo. O supermercado, pensa, é a Igreja dos nossos dias, o local onde a
salvação e a loucura estão amalgamadas. A Imagem de um gigantesco polvo e seus
tentáculos surge em sua mente. Como fugir dos tentáculos do NADA? Se pergunta.
Sabe, porém, que sua fuga será necessariamente solitária. A fome aperta, e ele
está num supermercado. Seu estômago ronca, e sente uma forte vontade de mijar.
Decide por um pacote de macarrão e um maço de brócolis. Não se recorda se
o coletivo de brócolis é maço ou ramo, imagina até que pode ser diferente. Não
abre mão de duas cebolas e alguns tomates. Ovos e alhos já havia em casa. Ao
passar sua exuberante compra, repara na atendente do caixa: uma moça
aparentemente suburbana, ainda deslumbrada por trabalhar numa rede de
supermercados, e que com o primeiro ou talvez segundo salário, pôde dar um
jeito nos dentes e colorir os cabelos. Antônio Carlos pensa sobre o quão
efêmero era aquele orgulho vindo da atendente. Imaginava ele que poucos meses a
faria sínica e deprimida. Ela se daria conta de sua real condição, e seria a
partir daí que a jovem poderia ter alguma salvação. Outra possibilidade, a
pior, era a de que não perceberia a sua situação, e acabaria mais e mais
alienada, entorpecida por um parco poder de compra, endividada pelo uso do
cartão de crédito, enganada por anúncios publicitários, pelas pessoas,
estimulada a, gradualmente, se aniquilar. Quando notou os saltados olhos negros
da atendente, calculou que a segunda possibilidade era a mais crível. Nesse
momento, ouve uma voz, em certa medida rouca, que eclode daquela boca de
grossos e bezuntados lábios: É CRÉDITO OU DÉBITO? Antônio responde com uma voz
quase inaudível, vez que estava há muitas horas sem dizer nada: Débito...
Chega em casa. Prepara o almoço. Evidentemente sem qualquer entusiasmo.
Liga a TV enquanto cozinha o macarrão. Vê que a merda toda continua, e que uma
ou outra protuberância faz-se surgir na forma de um novo modismo escroto, ou um
novo e insistente apelo marqueteiro absolutamente deprimente. Por alguns
instantes se dedica a pensar sobre a vida que os executivos da TV levam. Pensa
nas reuniões que realizam. Orgulha-se, ainda que quase quixotescamente, que seu
perfil não induz a novas discussões sobre a estética do que é vendável. O
macarrão cozinha, Antônio Carlos acrescenta o brócolis, é sem dúvida uma
refeição digna. Boceja. Olha o relógio. São 9 da noite. Lembra-se de continuar
uma leitura que lhe pareceu interessante. Ao ter o livro em suas mãos, observa
todas aquelas palavras e, espontaneamente, raciocina que durante aquele dia
seus pensamentos, se transformados em palavras, provavelmente corresponderia a
alguns livros... É aí que, pasmo, se confronta com a realidade de que durante
todo aquele dia, a despeito de tudo o que havia pensado, do vasto universo de
palavras que dançaram em sua mente, apenas quatro a ele foram ditas: É
CRÉDITO OU DÉBITO.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
CAFÉ COM VOLTAIRE
Não raras vezes algo
curioso acontece comigo, acredito que com vocês também. Vira e mexe me pego em
reflexões sobre em que medida somos livres. Ou mesmo se efetivamente o somos.
Existe um sem número de autores que já trataram do tema e, seus livros, se
reunidos, com certeza comporiam bibliotecas inteiras. Não nego isso. Sei que o
tema não é nada original. Mas isso não importa.
Somos livres e presos, ao
mesmo tempo. Foi isso que minha extremamente limitada razão foi capaz de
deduzir. Nossa experiência de liberdade é exercida somente no plano concreto,
do real, de vivências efetivas. E são esses os planos que limitam a nossa
liberdade.
Há, portanto, não uma
exclusão, como em princípio soa intuitivo, entre liberdade e limitação a ela,
mas sim uma relação de condição. A liberdade se condiciona a determinados
limites, pois sem eles ela simplesmente não seria realizável, vivível enquanto
experiência. Tentarei ser mais claro. Pense que alguém é infinitamente livre.
Ser “infinitamente livre” é uma construção textual apenas, já que como se é
livre se há um infinito universo de possibilidades, de decisões a serem
tomadas?
É impossível ser
infinitamente livre na medida em que a possibilidade de escolha de uma entre
infinitas possibilidades é nenhuma. Sei que pode parecer bastante abstrato e
até confuso, mas se prendam na ideia de uma liberdade infinita. A partir daí, notem
que se é infinita, qual caminho se irá escolher? É possível dizer “qualquer um”,
mas um dentre quais, se eles são infinitos? O que percebi, raciocinando dessa
maneira, é que UMA EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE INFINITA É ABSURDA. Essa reflexão
me permitiu concluir que A LIBERDADE COEXISTE NECESSARIAMENTE COM SEUS LIMITES.
Nesse ponto, me recordei do conceito sartriano de facticidade, e acho que se
trata exatamente desses limites que, paradoxalmente, permitem a experiência da
liberdade.
Partindo dessa
constatação, a de que a liberdade é inevitavelmente limitada, penso no grande
número de pessoas insatisfeitas com a liberdade que possuem, exatamente por ser
essa necessariamente limitada. Isso me fez lembrar uma frase de Voltaire, que
quero compartilhar com vocês: “É ESTRANHO
QUE OS HOMENS NÃO ESTEJAM CONTENTES COM ESSA MEDIDA DE LIBERDADE, ISTO É, COM O
PODER QUE RECEBERAM DA NATUREZA DE FAZER, EM VÁRIAS SITUAÇÕES, O QUE ELES
QUEREM; OS ASTROS NÃO TEM ESSES PODER.”. Depois dessa lição de
François-Marie Arouet, deveríamos pensar muito antes de nos queixar de nossa
eventual insuficiência de meios...
Essa história do absurdo
de uma liberdade infinita, também me fez pensar sobre o livre arbítrio. Como já
disse, não possuo uma razão excepcional, minha mente é bastante simples, por
isso não pretendo propor verdades absolutas, até porque, mesmo partindo da
minha mente rústica, sei que elas não existem. O livre arbítrio seria também
apenas uma construção linguística, uma ilusão? A boa e velha SINCRONICIDADE me
presenteou com uma reflexão singular de Voltaire, sim, ele de novo! E eu que
não o imaginava como filósofo! Vejam só: “SERIA
MUITO SINGULAR QUE TODA A NATUREZA, QUE TODOS OS ASTROS OBEDECESSEM A LEIS
ETERNAS E QUE HOUVESSE UM PEQUENO ANIMAL DE UM METRO E MEIO DE ALTURA QUE, A
DESPEITO DESSAS LEIS, PUDESSE AGIR SEMPRE COMO LHE AGRADASSE, MOVIDO APENAS POR
SEU CAPRICHO”. Genial, não? Eis nossa belíssima tragédia: nos consideramos
livres, uma liberdade, porém, que não se exerce infinitamente, é circunscrita,
necessariamente delimitada. Mas, a nossa vontade de agir, o que nos impele a
escolher este e não aquele caminho, será completamente livre? Em que medida as
leis da natureza poderiam nos condicionar a agir de possíveis modos?
O que me levou a escrever
esse texto? Até que ponto esses questionamentos necessariamente me ocorreriam?
Não ocorrem apenas em função das minhas experiências de vida? Ou haveria algo
inato, tal como o fato de eu ser libriano e, segundo a astrologia, os nascidos
em libra tenderem a ser reflexivos, tais como todos os nascidos em outras das
três casas pertencentes ao elemento ar? Voltaire certamente repudiaria essa
última sugestão. Eu não me considero capaz de solapá-la tão peremptoriamente.
Sou hesitante, outra característica típica dos librianos...
Se, como dizem os
dialéticos - tudo é e não é ao mesmo tempo -, quanto à liberdade, somos e não
somos livres. Independente de sermos ou não efetivamente livres, o que importa
é que algo somos.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
SENTE-SE
Fazia um belo dia de Sol em Ourinhos. Eu o vivia sentado num banco. Mais de meio dia já se passava e a luz ganhava em encanto. Um amarelo vivo banhava a calçada e a relva. O sabiá cantava com força seu tempo de amor. Pensava na impetuosidade da vida, na energia das criaturas, na beleza da existência, a despeito da aparente ausência de sentido ou finalidade.
Podia
ficar por ali mais uma hora, uma hora e meia. Tomaria o ônibus para São Paulo
só às três e meia da tarde. O bem-te-vi ganhava do sabiá na séria brincadeira
de quem cantava mais forte, no instante em que eu fechava os olhos para melhor
sentir a luz do sol e o vento fresco que fazia música nas folhas das palmeiras
ao mesmo tempo em que carregava o aroma das flores do ipê amarelo, todo
florido.
A
araponga brincava com o coquinho no bico. Armava voar e desistia, cansada. As
rolinhas voavam de e para todos os lados, fazendo pingos de sombra. Entre
essas, uma diferente surgiu e me chamou a atenção. Era a sombra de um homem,
que caminhava em minha direção. Foi o suficiente para que eu o olhasse, e
despercebesse o espetaculozinho de luz, calor, plantas e pássaros que se fazia
até então. O que vi foi um homem velho, pardo-bronzeado, de rala-barba-branca e
cabelos ralos. Vestia-se dignamente, como os antigos gostam de se vestir. Ao
aproximar-se, notei que estava sujo e com a roupa rasgada em algumas dobras,
porém. Me acenou com a cabeça e se sentou ao meu lado esquerdo. Eu devolvi o
aceno, sem dizer palavra.
Não
tive o desejo de me levantar dali, apesar de o velho não cheirar bem. Pensava
que isso poderia ofendê-lo, já que naquela praça havia outros bancos vazios e
ele havia feito questão de se sentar ao meu lado. O cheiro já não estava tão
ruim, cheirava a tabaco. Ele havia tirado do bolso um maço de Derby, acendido
um e oferecido para mim. Recusei, dizendo que não fumava, mas que muito
agradecia. Tentei voltar à contemplação, caçando ideias em minha mente,
reatando pensamentos. O que vinha, no entanto, eram possíveis diálogos que eu
poderia propor com aquele senhor, os quais foram prontamente sufocados pela conclusão
de que ele parecia querer ficar calado e, como eu, observar o dia.
Por
curiosidade, somente, quis olhar melhor sua face. O nariz adunco, pronunciado,
sob uma pele bronze e esturricada, um rosto como digno monumento a representar
nossa organicidade em face da totalidade da vida. Das forças inorgânicas que
nos possibilitam e nos terminam, simplesmente, tragicamente. Suas têmporas
ossudas pareciam anunciar que ali se tinha um homem que, apesar de velho, era
forte. Ele tragava a fumaça de seu tabaco, sem demonstrar prazer ou dor. A
expressão, imutável. O olhar parecia enxergar longe ou não enxergar nada. Era a
quietude.
Enquanto
passava meu olhar sobre o chão, observei seus sapatos. Encardidos de terra vermelha, de tão gastos e
sujos tinham um aspecto de singularidade. Como se fossem feitos somente para
ele. Não me fizeram pensar em produções industriais de massa, mas sim o quanto
aquele homem devia de ter andado, perambulado em busca de quê? De nada? De
tudo?
No
instante em que pensava sobre suas andanças, outra sombra humana surgiu.
Caminhava rumo ao nosso banco. Olhei para ele, e vi que não retribuía o olhar,
apenas caminhava. Igualmente velho, era mais claro, porém, e suas roupas
pareciam em melhor estado. Quase imberbe, os cabelos brancos eram curtos, mas
começavam a cachear. Nos cumprimentou com um aceno de cabeça, sentou-se ao meu
lado direito. Seu cheiro também não era agradável, mas também não me incomodou.
Resolvi permanecer ali. Aquela pele clara ganhava em vermelho-laranja, marcas,
rugas, chagas. Quanta luz já não havia se misturado a ela? O quanto somos
diferentes da luz?
Esse senhor estava usando
paletó. O vento frio, ainda que em dia de sol forte, o justificava. Sem nada
dizer, levantou o braço direito, e com a mão esquerda fuçava bolsos. Logo pude
notar que, de seu velho paletó, a mão esquálida e cheia de veias colhia uma
garrafinha com dois pequenos copos na boca. Trêmulo, encheu um dos copos e me
olhou. Seus olhos azuis eram pálidos, como o céu em dias de estiagem. Eram
bondosos tanto quanto tristes. Disse que não bebia, mas que agradecia. Então se
esticou e ofereceu a bebida ao outro homem. Este aceitou, sem enunciar palavra,
mas mediante gestual, agradeceu. Numa talagada, esvaziou o copo e o colocou na
beirinha do banco. Do seu maço de cigarros, sacou um, e o ofereceu ao do
paletó, o qual igualmente agradeceu a oferta, através de gesto. Ambos beberam,
ambos fumaram.
Não ouvi uma sequer
palavra deles dita. Não havia movimentos bruscos. Não havia medo, pressa,
ansiedade, cólera. Se nada diziam, era porque nada precisava ser dito. Como se
tudo já houvesse sido falado e nada resolvido. O que havia era a velhice, a
dor, o martelar incessante do passado, os quais, pensei, tornavam-se menos
insuportáveis em companhia. Nem precisava conversa, a simples presença era o
que permitia comungar da solidão, e dizer o indizível, sem balbuciar palavra.
O relógio acusava três e
vinte e cinco. Do banco tive de levantar. Nem cinco passos dei, olhei para trás
e os velhos permaneciam nas mesmas posições. Fiz um aceno com a mão. Eles
fizeram o gesto de sempre, aquele com a cabeça. Um bem-estar me acometeu quando
a ternura por eles fez em mim uma viva sensação. O sentido das coisas não se
diz, não há palavra. Sente-se.
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