domingo, 21 de fevereiro de 2016

SOBRE UM BÊBADO, CRIANÇAS E O SOFRIMENTO ALHEIO



Naquele tempo, a molecada vivia muito mais solta do que hoje. Esse lugar comum ilustra bem o que era minha vizinhança no início dos anos noventa. Claro que já existiam vídeo-games e pais super-protetores, mas tanto uns quanto outros não se comparavam à insanidade que se vê atualmente. Mesmo o mais nerd dos moleques passava boa parte do seu tempo na rua, de modo que toda aquela criançada convivia junto e crescia junto, conhecendo-se mutuamente através de conflitos ou de amizades  – quase sempre uma mistura de ambos.

Nunca um dia brincando na rua era igual ao outro. Seja porque as crianças não eram as mesmas, seja porque alguma trazia uma novidade, ou porque eventos aconteciam. E, para nós, eventos significavam algum animal diferente surgir do nada, algum novo guarda na praça, uma briga nova entre adultos, uma chuva torrencial, uma ventania...

As férias de verão eram absolutamente riquíssimas nesses eventos. Como a gente ficava até uma ou duas da manhã na rua, a chance de coisas loucas acontecerem aumentava. Foi numa noite dessas que um bêbado entrou com sua bicicleta bem no meio de onde brincávamos de mãe da rua. A figura parecia feliz em meio a toda aquela criançada. Abria um sorriso desdentado quase comovente. Não me recordo quem de nós atendeu ao seu primeiro chamado. Provavelmente deve ter sido o mais velho, Fabiano, se não me falha a memória, mas isso também não importa, o que importa é que o cachaceiro pediu que fôssemos até nossas casas ver se tinha alguma bebida pra ele. No instante em que ele disse isso, nós nos olhamos e quase por comunicação telepática diabólica, já sabíamos o que iríamos fazer. Nós dissemos ao bebum “espere aqui, nós já trazemos algo para o senhor beber”.

A minha casa era ao lado da rua em que brincávamos, de sorte que foi nela que entramos. Chegamos até a cozinha pelos fundos e fizemos um maravilhoso drink do mal. Um de nós mijou no copo; outro procurava o desinfetante; eu peguei o litro de cachaça;  o mais velho arrancava pelos do saco...Nós todos chorávamos de rir, estávamos quase em transe...mas contemos o riso quando voltamos à rua com o “coquetel”. Quando o velho cachaceiro viu o copo cheio, arregalou os olhos e disse “Deus é pai, que maravilha”. Pegou o copo e o virou numa talagada só, incrível! Nós ficamos tão boquiabertos que sequer foi necessário conter o riso. O velho fez uma expressão de ardência, mas durou pouco. Logo abriu aquele sorriso quase comovente. Montou na sua bicicleta e assim que pedalou se ouvia um som engraçado. A molecada havia grudado um copo vazio de água mineral entre os freios e o pneu, de modo que a cada pedalada saía um ruído agudo parecido com motor de fórmula 1.

O bebum já havia dobrado a esquina, quando meu irmão e eu decidimos segui-lo. Não consigo me recordar o que me motivou a fazê-lo, o caso é que montamos em nossas bikes e, chorando de rir, fomos atrás dele, sempre tentando fazer com que não nos percebesse. Seguimos o cachaceiro por dois ou três bairros, e chegou uma hora que ele parecia estar muito tonto, e que a qualquer momento se esborracharia no asfalto. Incrivelmente, o velho se mantinha na bicicleta, até que chegou numa curva já num bairro bem afastado e ao invés de virar o guidão ele simplesmente seguiu reto. A figura passou direto e mergulhou num matagal de um terreno baldio, desaparecendo. Nós chegamos até o terreno e, ao empurrarmos parte do mato, deu pra ver que se tratava de um barranco, mas, por estar noite, não conseguimos enxergar o bebum ou sua bicicleta. Nós rimos e voltamos pra casa. No caminho, me lembro de nossa euforia diminuir gradativamente. Quando chegamos de volta à nossa rua, a molecada queria saber o que havia acontecido ao velho, àquela altura apelidado de Motor Antarctica ou algo assim. Nós contamos que ele havia passado direto e sumido no mato. Toda a galera caiu na risada. E meu irmão e eu voltamos a rir euforicamente.


Quando fui dormir, já umas duas e meia da madrugada, não conseguia pegar no sono. Uma profunda tristeza tomou conta de mim e eu não parava de pensar naquele velho banguela. Senti muita pena dele e me lembro de ter chorado. Às lágrimas, me lembro de ter pensado sobre o porquê de algo tão engraçado ao mesmo tempo poder ser tão triste...Com oito anos de idade muita coisa me era inalcançável, e com certeza ainda é, mas aquela sensação de angústia e culpa me perseguiria sempre que eu percebesse que por trás do meu sorriso, prazer, deleite, estivesse algum sofrimento...Hoje, adulto, talvez seja essa experiência, ainda na infância, que me permitiu perceber, com certa facilidade, que em nosso mundo vivemos, em escala milhões de vezes aumentada e de maneira cotidiana, aquele evento com o velho; ou seja, um modo de se viver que provoca inúmeros deleites e euforias através de um mar de sofrimento alheio.  

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