sexta-feira, 5 de julho de 2013

UMA NOITE QUENTE


       Daquelas que se você não se atira no mundo, o mundo massacra você. Foi numa assim que a coisa toda aconteceu. Mario Hirota e eu. Ele, deprimido; eu, em busca de coisas e sensações novas, diferentes. Após algumas garrafas e conversas absolutamente sem sentido, e, me diga uma coisa... Por que diabos tem que ter sentido? Decidimos cair na noite.

Um artista mal compreendido, solitário; um burocrata insatisfeito, que não tinha a mínima ideia de que rumo dar a sua vida. Éramos uma bela dupla.

Evidentemente, paramos na Rua Augusta. Afinal, a que outro lugar poderíamos ir? Caminhando, sempre no sentido centro, observávamos o que poderia rolar. De repente, após ultrapassarmos a passos largos cinco ou seis baitolas, nos deparamos com um grupo de 10 ou 12 garotas.

É algo incomum um grupo tão grande de mulheres se aventurando na noite paulistana. Se pretendesse entrar nas razões para que isso seja algo tão raro, deveria escrever um tratado de cunho sociológico, mas não quero, NÃO É A OCASIÃO.

O caso é que estávamos em meio. Puxei conversa. Houve alguma resposta, nada muito receptivo, porém não nos expulsaram. Acreditei num flerte com uma ou outra. Eram várias, sorrindo, falantes, um vasto harém da pós-modernidade.

Uma delas, a que parecia ser mais altiva, gritou: “a gente vai entrar na boate!”. Achei que fosse apenas uma mentira, uma forma de nos enrolar. Mas não era. Em fila indiana, caminhavam rumo ao guichê do puteiro à direita da Augusta, lá pelas bandas do meio, mais ou menos na linha média entre a Avenida Paulista e o centro sujo da Capital. Inacreditável. O que faria aquele grupo de garotas num puteiro? De qualquer modo, não havia outra coisa a se fazer, a não ser seguir o séquito.

Dez paus a cabeça pra entrar, com direito a uma breja. Nada mal. As garotas continuavam agrupadas, como que, se juntas, estivessem formando uma blindagem. A reação das putas era curiosa. Algumas olhavam com um certo ar de desdém. Outras, curiosamente, com empatia. Mas a esmagadora maioria, com um profundo ódio! No olhar delas, era como que uma placa de NEON, em letras garrafais, dissesse: SUAS VADIAS, SUMAM DAQUI. COMPETIÇÃO JÁ HÁ DEMAIS !!!

Entretanto, não demorou muito para que as garotas de programa notassem que o interesse das clientes era, exatamente, as próprias garotas de programa. A coisa toda caminhou para um clima de harmonia, o qual, porém, era interrompido, ainda que temporariamente, por uma ou outra figura escrota que tentava xavecar as minas do grupo como se fossem putas. Havia um sem número de caras sentados que, com a entrada das garotas, resolveu agir. O grande número delas fazia com que o cara logo saísse fora. Acabava sendo hilário.

Resolvi gastar nossos créditos. Duas latas de cerveja ruim. Uma para cada um. Razoável. Nos dirigimos para o grupo das mulheres transgressoras. Sim, transgressoras. Que garotas, reunidas em turma vão para uma boate frequentada apenas por homens? Digam o que disserem, aquilo, para mim, foi algo absolutamente contestador. Eu pensei nisso, não se tratava apenas de umas minas entediadas buscando algo para fazer numa sexta insossa, tratava-se, em última análise, de uma atitude anárquica, uma reação raivosa contra o sistema, contra o “estabilishment”. Eu sabia o que elas queriam com aquilo e pretendia, o mais rápido possível, fazê-las compreender que estava por dentro da parada. Queria um olhar delas sobre mim como quem olha alguém pertencente ao clã. Mais que isso, um olhar de admiração. Afinal, não é por isso que saímos de casa?

Consegui. Uma delas me olhou e disse “esse cara é foda, que tipo de moleque entra na boate usando chinelos. Ele é diferente, meninas! Me diga uma coisa cara, o que você faz mesmo?” Respondi, coisa e tal, mas logo o interesse dispersou. Não entendi. Meu amigo, Mário, tentava se aproximar, mas, como nada dizia, pouco era notado. De repente, percebi que algo iria acontecer. As mulheres passaram a dar as mãos e silenciosamente cada uma foi ocupando um ponto, formaram um círculo. Aí, a que parecia mais altiva, confirmou a aparência, discursou. Falava algo sobre a condição das mulheres, não deu pra ouvir direito. Após seu discurso, todas elas passaram a entoar alguns dizeres numa língua estranha (parecia ser numa língua estranha). ERA UM RITUAL, O RITUAL DAS LÉSBICAS PÓS –MODERNAS. Mário e eu apenas observávamos.

Foi aí que a merda aconteceu. Num rompante de loucura, me joguei no centro da roda. Pulei, ensaiei alguns passos de dança. Era uma forma de escrachar o que estava rolando. Atitude antissocial? Transgressora? Boçal? Criminosa? Sinceramente, não sei ao certo. O caso é que aquele “ritual” me provocou. Vai ver que minha reação decorreu de impulsos ídicos (relativos ao “ID”, acho que esse termo existe). Sabe aquela história da crise do macho? Hahahaha, é por aí...

Evidentemente, as garotas reprovaram minha atitude. Houve empurrões, gritos para que eu me mandasse dali. Foi o que, após alguma resistência, atendi. Fui ao outro extremo da boate e lá me sentei num sofazão vermelho. Mário ficou próximo ao ritual, com a cara de quem não entendia porra nenhuma. Realmente, não havia como entender.

Quinze minutos depois, voltei às proximidades do grupinho. Retomei um ou outro diálogo com uma ou outra delas. Havia umas mais receptivas, outras bem hostis. Sem dúvida nenhuma era um gineceu bastante plural, tanto nos penteados, aparências, quanto nos temperamentos. Se você não sabe o que é gineceu eu deveria sugerir que pesquisasse. Mas, considerando que você deve ser preguiçoso, vou dizer. GINECEU era o cômodo, o local, reservado às mulheres na GRÉCIA ANTIGA. Estou falando, portanto, de um gineceu, pelo menos quanto à composição, e não ao lugar. Pois na Grécia Antiga as mulheres dignas de estarem em um gineceu não frequentavam prostíbulos. Faziam o papel de putas no seio do lar. Mas, voltemos a Pós-Modernidade e sejamos amigos do SIGISMUNDO Bauman. Ah, você também não conhece o Sigismundo? Bom, nesse caso, por favor, vá pesquisar!

Mário perseverava. Parecia apaixonado por uma que ostentava um penteado bastante armado. Eu admirava seu poder de insistência e, mais ainda, a paciência da vítima.

Sem mais, nem menos, a líder anunciou a retirada. Mário e eu já havíamos bebido a garrafa de vodka das donzelas, e estávamos meio atordoados. A ordem de retirada nos atingiu. Perguntávamos para onde iriam. Se não gostariam de ficar um pouco mais. Desespero, insanidade, decadência.

Nossas súplicas não foram capazes de arrancar delas seu destino. Nada mais coerente. Era um grupo de lésbicas. A bebida, a madrugada, faz a realidade transmudar. Talvez, sob o sol do meio dia, aquela mulherada fosse repugnante. Uma vez que elas se arrancaram de lá, nós fizemos o mesmo. Mas, dessa vez, decidimos não ir atrás delas.

Nos viramos para o outro lado. Sim, havia outro lado. Nada transmudado. A noite cessava, e naquele momento não éramos capazes de avaliar se ela havia sido boa ou má, mas sentíamos o peso das horas. Para nós era certo que as coisas haviam acontecido, aliás, como, querendo ou não, sempre acontecem, é aquela história de beber para que algo aconteça. Quase nunca falha. Senti, de leve, um vento frio. Todo o calor que havia nos impelido à aventura, dissipara. Falando nisso, sempre me perguntei: é o frio que chega, ou o calor que se esvai?






2 comentários:

  1. Definitivamente, há experiências que valem por muitos livros, não acha?
    GK

    ResponderExcluir